sábado

1$, 1 calcanhar

A tendência para textos e pensamentos piegas esgotam-me! Ainda assim senti um forte impulso para escrever o que aqui vai!
Há 12 anos, neste mesmo dia, após uma estadia prolongada, saía triunfante e receosamente feliz do Hospital S. José. Tive um meningioma, diagnosticado aos 39 anos de idade, com 3 filhos por criar e uma mão cheia de gente para amar. Um marido para "arreliar", uns pais para mimar, irmãos para tagarelar, sobrinhos para acarinhar, amigos para desafiar e alunos para ensinar! No dia em que soube o porquê de me sentir tão limitada nas minhas ações, com tantas vertigens e sempre a "afundar", entrei em pânico. Os primeiros dias foram um verdadeiro pesadelo, vivido entre  sorrisos forçados, o meu disfarce para não assustar parte da família e para esconder do resto da família e amigos, o que estava a passar. Entrei no Hospital num misto de sentimentos. Absoluta confiança no meu neurocirurgião, que me deu força para enfrentar tudo com alguma serenidade. Medo do que poderia acontecer, mergulhando numa profunda tristeza, pensando nos meus filhos e no que eles estavam a passar e que ainda poderia piorar. Uma tristeza de não ver os meus filhos crescer, apoderou-se de mim. Só pensava, "Sou tão Feliz! Não me Leves já daqui!". Apesar do pânico que sentia do que aí vinha, estava tranquila na certeza porém de que os meus filhos ficariam bem entregues. Quem melhor do que o pai deles, os meus pais e os meus irmãos, para os criarem?! (Eu!) Sentiriam a minha ausência, mas tinha a certeza, que com o tempo viria a saudade preencher essa lacuna. Deixava-lhes recordações felizes para partilharem com a minha família.
Tudo correu mais do que bem e no fim ainda ganhei uma "peregrinação", com os meus Pais, a Santiago de Compostela. Sendo um ano de Xacobeo, tivemos direito a todas a indulgências especiais! O meu Pai compilou carinhosamente este álbum de fotografias dos dias mais que perfeitos que aí vivemos.
Confesso que os anos passam mas que vivo sempre com o receio das recidivas. Passei por outros sustos e cirurgias, uma delas à mama. Desses sustos, do medo, da minha experiência, do sentimento de estar a viver uma segunda oportunidade, nasce a necessidade feroz de ser feliz, de explorar todos os cantos e recantos onde encontre momentos simples de intensa felicidade. Agarro com toda a gana as 365 oportunidade de ser feliz a cada ano que passa, este ano com direito a bónus, 366 oportunidades para ser feliz! Não me entrego aos meus medos, não aceito ser derrotada pelas coisas menos boas e assim vou "reinventando" a felicidade dia-a-dia, como a minha Avó Teresa dizia.
 Os momentos de serena felicidade, a que cá em casa chamam "distrações", "ausências", "momentos zen", dedico-os às agulhas. As agulhas foram a minha "fisioterapia" para as mãos, quando voltei para casa. Descer 3 pisos de escadas a pé, de casa dos meus pais, para casa da minha irmã, foram a "fisioterapia" para as pernas. Tive de aprender a viver com as minhas mãos trémulas e a dificuldade em concentrar-me. Passei a fazer jogos de memória,  muitas vezes com base nos esquemas e padrões dos meus trabalhos de mãos. Ponto a ponto, laçada em laçada, procuro manter os pensamentos em ordem.
Há quem procure também "terapia" e apoio nas agulhas, a Sox Therapist, mais precisamente no Ravelry. Por apenas 1$, fique com as instruções de como fazer um calcanhar. É muito pouco, para todo o trabalho que deu escrever estas instruções. Sei o que é precisar dos outros (graças a Deus não precisei de apoio financeiro!). Sei como nos faz sentir, quando somos assoladas por uma onda de entreajuda e solidariedade.  Sei que nessa mesma onda afogamos os nossos medos e encontramos força para remar contra a maré e até sorrirmos! Sei que aí conseguimos ver uma luz, que nos indica um porto seguro. Vamos ajudar! É só clicar aqui, "Buy it now" e fazer o dowload, dando o nosso contributo. O texto está longo demais! Não me apetece reler, cortar, corrigir...Fui espontânea, perdi-me na conversa,  falei demais. Mas fica assim, com a alma à beira da tecla. Se chegou aqui, obrigada pela paciência! E força, experimente fazer umas meias, é viciante!

3 comentários:

Adriana Costeira disse...

Este texto veio mesmo como inspiração, sou mãe de dois meninos, e da primeira gravidez fiquei com endometriose, dois 20 meses após a cesariana, fui novamente a cirurgia depois de uma luta para "descobrir o que tenho", o meu segundo filho nasceu, e nunca mais deixei de sentir dores na zona da cicatriz, tenho dores de manhã e à noite, faço exames e nada se descobre.
Já não tenho período há dois meses, acordo para fazer "xixi" de noite, e neste momento a "massa" na zona da cicatriz cresce a olhos vistos...toda a gente a vê, mas ninguém diz ou descobre o que será, está é para aí a 10 consulta de especialidade diferente a que vou e a verdade é que o medo se está a apoderar de mim.
Os únicos exames que fiz foi ecos, já fui seguida em ginecologia, medicina geral, cirurgia geral...e ninguém me manda fazer TAC.
Fico tão triste que pensem que só os velhos têm doenças, fico triste com os médicos Portugueses, que optam sempre pela via da medicação antes mesmo do diagnóstico :(
A minha filha vai fazer 7 e o meu filho 2.
Não tenho medo do resultado, tenho medo de descobrirem tarde de mais.
Mas identifiquei me com este post porque ontem esse era o meu pensamento, se descobrir o que tenho vou fazer uma peregrinação :)
Obrigada pelo testemunho e beijinhos

Inês Sousa de Menezes disse...

Pois é, já lá vão muitos anos! E continuo a admirar a força de vontade que tem em agarrar a vida, em aproveitar tudo e em tornar os pequenos momentos, momentos que valham a pena recordar :) É uma inspiração e um exemplo para mim! Só tenho que agradecer o facto de pôr sempre os filhos em primeiro, como mostra no texto, pois isso é que a motivou a recuperar rápido e a manter-se aqui ao pé de nós, onde é precisa e onde faz falta. Adoro-a!

Naná disse...

Sofia, o único comentário que consigo ter é que me emocionou! Em demasia, para poder escrever mais que isto...